Já temos o Um.

Já entregamos o um do Portugal Countryside para 2020 e todo o sempre. O um, o dois, o três e restantes números passam a ter nomes. Adquirem a personalidade de quem o transporta. Não serão mais um conjunto de algarismos, mas um número com identidade, corpo e alma.

Esta foi uma medida adotada em 2011 nos primeiros 100 km de Trail Running em Portugal Continental. Nesse ano decidimos que o um teria o rosto da Glória Serrazina e assim é até hoje. Não foi uma estratégia de comunicação.! Foi uma decisão para que conseguíssemos perceber quem foi pioneiro, ou de saber se já esteve mais que uma vez no evento. É outra forma de criar outros elos aos nossos eventos.
Hoje, curiosamente, temos participantes que nos pedem os números de evento para evento. – “Paulo, reserva-me aí o 13 para o Portugal Countryside” Outros, mesmo em provas não organizadas por nós pedem o número que o marca nas nossas provas. É o caso do 61. Sessenta e um, em algumas provas é Luíz Mota. Não sabemos se virá ao Portugal Countryside, mas por muitas e boas razões está reservado para ele.

O Um do Portugal Countryside.

Esta não foi uma decisão difícil. Apesar de existirem mais algumas pessoas com um perfil número 1, a nossa decisão foi relativamente rápida. Havia um conjunto de pessoas que tinham um perfil que encaixava, um perfil número um, mas optámos pelo Vítor Rodrigues não só pela sua persistência e resiliência e muito menos pelos resultados conquistados. O facto de ser um “habitué” noutras provas organizadas por nós influenciou, mas não foi preponderante.

Então o que é que decidiu?

Em 2016, na Portugal 281 Ultramarathon, o Vítor andou largas horas nos primeiros lugares. Em Idanha-a-Nova é o primeiro a chegar e depois, daí em diante, manteve-se pelo top 6 da prova. Muitos quilómetros correu na companhia do Aníbal Lavandeira, um Uruguaio que no ano anterior tinha ganho a Extremo Sul Ultramarathon.

No Vale D’Urso, a pouco mais de 4 km da meta, depois de 277 km de esforço contínuo, entre conversas ouço dizer que o Vítor estava muito mal e tinha ficado a dormir na aldeia. Dispararam os alarmes, porque apesar de ser pleno verão, as noites são frias, no Vale D’Urso, por causa da Ribeira, são gélidas. O frio é muito perigoso, sei disso, senti na pele isso. Por isso, ao som desses alarmes, sabendo do estado de fadiga que ele se encontrava, arranquei de madrugada ao encontro dele. Adormecer naquele estado poderia ser o fim. Não podia ficar ali enrolado numa manta térmica à espera do novo dia, ou de outras energias. Encontrei-o junto a um portão, sentado, dorido, magoado, mas sereno, equilibrado, com raciocínio lógico e sem saber o que fazer. Foi, sem dúvida, dos momentos mais marcantes na minha vida como organizador.

Na altura a pergunta é: desisto ou continuo?
Quem responde a isto quando faltam 4 km e depois de 277? Quem é capaz de decidir nestas condições?
O que falámos, agora não interessa, mas a decisão foi:
– “…não vou continuar, Paulo”.

Ainda hoje me emociono com esse momento. Foi de alguma crueldade para os dois. Mas, foi também, uma decisão inteligente e que o eleva para um estágio superior de inteligência emocional.

Foi a história que decidiu o número um, do Portugal Countryside. Foi dele a primeira inscrição. É dele a frase “Se queres falar com Deus, esta é a prova”. Entretanto voltou mais duas vezes à PT.281+, chegou sempre em segundo lugar. Foi ao Brasil e subiu ao pódio da BR135 e é finalista da Badwater.

O Vítor Rodrigues é o Um da Portugal Countryside.

 

Escrito por: Paulo Garcia, Diretor de Prova
Fotografia superior e de pré-visualização: Rubén Fueyo